sábado, 27 de novembro de 2010

ANTIPANICO

Um par de olhos vidrados /Un par de ojos fijados
Uma peça que falta /Una pieza que hace falta
Um gosto de coca /Un gusto de coca
Um lugar de sobras /Un lugar de sobras

O negro que fica /El negro que se queda
É o branco que foge/ Ès el blanco que huye
O risco perdido /El riesgo perdido
É a vontade que salta/ Son las ganas que saltan

Tudo é exposto /Todo está expuesto
Esgoto /Cloaca
Explode /Explote

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Em trânsito

Um pesar invertido segue secreto em ritmo contido.
Um cantar reunido, abriga o azul e o amarelo que não grito.
De onde estou, as bolas são prata e o passo é firme.
De onde venho, o preto é cor e cara e dor.
Para onde eu vou, não sei.
Em trânsito, passei.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Em tempo

Em tempos de entrada
Portas & vidas
Punhos & pousos
Cortes profundos e morosos

Mas o tempo é saída
É porrada
É boca no mundo
É toca no asfalto
Vivência e partida
Couraça varrida
Chão
Despedida

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Um delírio e muitos tempos

No exato momento em que a vê ali, imóvel, estatelada naquele chão frio e sólido, Raul é tragado por um redemoinho de emoções vividas. Sente como se o presente nada mais fosse que um tempo intermediário entre o que foi e o que será. Ou melhor, entre o que foi e o que seria, já que o futuro é o menos existente dos tempos.
Agora Raul estava na porta de sua primeira casa. Segurava uma maça babada na mão direita. Seus olhos eram limpos e novos. Não se apegavam às coisas com a convicção de hoje. Apenas experenciavam. Sem julgamentos ou pressupostos. Sem peso. A mãe vinha em sua direção. Sua expressão denotava alegria, mas também angústia. Ela segura Raul colo e o leva para o quintal.
Quando chega ao quintal, Raul está mais velho. Finge que brinca no balanço para não chamar a atenção dos pais. Nesta época Raul já tem problemas, não se identifica mais com o estado de infância anterior. Está bravo. Não quer ir à escola. Não gosta dos supostos amigos. Não gosta da vida que escolheram pra ele. A única coisa que agrada Raul nesses momentos é olhar para cima e imaginar uma vida para além do céu. Uma vida de descobertas infindáveis. Gosta de imaginar-se num laboratório de uma grande empresa. Envolvido por tubos de ensaio, fumaças coloridas, telescópios de última geração e protótipos de naves espaciais, ele sonha que será um grande cientista.
Ela continua ali. Imóvel. A diferença é que agora o sangue envolve toda a sua cabeça. Raul sabe o que fazer. Sabe também o que não fazer, mas sente uma vontade incontrolável de fazê-lo. Então, se joga para ela. Vive o presente povoado pelo passado e por previsões irrealizáveis. Reconforta sua alma ao unir-se àquela alma.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Yo

Siento que soy.
Siento lo que fui y lo que hice de lo que fui.
Siento la color de todo que en mi quedó.
Siento los trozos de passado en flor.

Siento.
Clavo.
Me olvido.
Me cebo.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O poder do mito

Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos.

Joseph Campbell

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Um agosto aberto

Os acordes que de ti saíam, estremeciam em mim. A viga viva que na tua voz soava, compassava na minha mão. Colares de luz nos rodeavam, formando convenções de cigarras coloridas. Coloradas. Estufadas de calor e de sorrisos. Amaciadas por todas as pistas que se seguiram. Pelo nosso excesso de tato. Pela minha falta de medo. Pelos teus incontáveis segredos. Sondáveis. Solventes. Sou tua. Somente.